IDIOTIDIANO

Fim de expediente. Demorou-se ainda alguns minutos antes de pegar suas coisas e ir embora. A competição no trabalho estava feroz. Seu chefe andava numa caçada por incompetentes desde que recebeu ordens de fazer corte de pessoal. Para quem tem pouco, como ele, a demissão é a morte. E ali os fracos não tinham vez.

Agora precisava correr se quisesse sentar durante a viagem de mais de uma hora entre o trabalho e a sua casa, no fim da linha. Precisava ser mais rápido do que os outros. No horário de pico, são todos selvagens. Precisava usar toda sua agilidade animal para conseguir um assento onde pudesse cochilar entre as batidas da sua cabeça escorada no vidro da janela.

Mais uma vez conseguiu. Uma sensação de poder sentou junto com ele. Era o macho alfa. Lutaria até a morte com quem quer que ousasse tentar tirá-lo do trono de fibra…

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Narrativa sem modos

“Um dia me flagrei narrando minhas ações.

Foi no final de um telefonema. Era uma dessas ligações para cancelar o plano de celular, dessas que acabam fazendo com que a gente queira cancelar o próprio plano de vida e ir morar longe de qualquer coisa que precise de um call center. Eu já estava no limite da minha irritação quando desisti daquela negociação e encerrei a conversa com o clichê e sarcástico “passar bem!”. Tão logo o som da minha voz cessou para o mundo, ele ecoou na minha mente, quebrando o silêncio furioso e narrando o que havia se passado. “‘Passar bem!’, disse ela pouco antes de bater o telefone na mesa.” foi o que eu, assustada, me ouvi narrar.

Desde então, as narrações nunca mais pararam. De assustadoras, passaram a ser meu passatempo, minha diversão. Eu sentia um constrangimento prazeroso. No início eram apenas observações óbvias sobre o que qualquer um poderia perceber se me visse no momento, nada além de uma nota imparcial sobre um fato.  Mas logo me vi narrando não apenas o que fazia, mas tudo o que  pensava. Meu medo era, e sempre será, que a narração tomasse forma de ondas sonoras e mais alguém ouvisse. Não teria sido um problema quando tudo começou, mas seria um problema agora.

Meu eu narrador cansou de apenas observar. As descrições imparciais e rápidas daquilo que acontecia deram lugar aos longos parágrafos introspectivos, repletos de tudo aquilo que eu queria, mas não ousava falar ou fazer. E de devaneios e conjecturas e análises e teorias sobre o que me levava a agir de determinado modo. Eu sentia uma desconexão importuna entre a vida que eu levava e a narração dos meus pensamentos. Era inconcebível que eu pensasse o que me ouvia narrar. Eu era muito mais comum que aquilo.

Levei tempo e tombos até entender que eu posso ser personagem e narrador. Na pior das hipóteses, uma hora serei considerada louca. Na melhor, estou facilitando a vida de um leitor de mentes desatento.” – escreveu na folha amarelada de caderno.

Foram horas pensando em como começar a contar e tudo parecia clichê demais. Foram outras tantas procurando sinônimos para não repetir palavras. Se questionava sobre quem, diabos, resolveu dizer que repetir palavras deixava o texto pobre. Ora, as pessoas se repetem o tempo todo! Cada uma que nasce é só mais um emaranhado de repetições!

Procurava inspiração no que tinha ao redor, mas tudo que tinha era falta de criatividade. Nem mesmo se sentia capaz de contar o que se passava com ela. Não se sentia capaz tornar o que tinha a dizer interessante. E, no final, concluiu que nem mesmo ela achava aquilo interessante. Não achava que o que tinha a dizer era importante, mas se achava importante demais para dizer asneiras.

Já era tarde e o sono parecia ainda mais envolvente perto da amarga falta de inspiração. Olhou para o cachorro que dormia sobre seus pés e pensou que trocaria seus polegares opositores por uma vida de respeito aos instintos. Usou o polegar opositor direito para segurar a caneta e escrever “Ao final desta frase acaba o texto.”.

O Miojo® é o meu mentor e a fome não me matará

O Miojo® é a representação culinária de uma transição importante na vida. Ele é a refeição símbolo do desprendimento do vínculo familiar, o alimento que expõe a inabilidade recém-descoberta de lidar com o mundo.

O Miojo® é a nossa companhia quando saímos da casa dos pais e passamos a morar sozinhos. Nos primeiros momentos, não conseguimos nos ver, num futuro próximo, saboreando algo sofisticado como resultado dos nossos próprios esforços. E o Miojo® está lá, pré-cozido e carinhoso, pronto para abraçar nossas papilas gustativas sem pedir nada em troca.  Descobrimos que comer é o melhor relacionamento unilateral que existe.

Por diversas vezes sentimos saudade da interação dos ingredientes da casa dos pais. Quando os visitamos e comemos aquela macarronada caseira, é quase como fazer amor. Mas é o pacotinho de carboidratos de gosto homogêneo que está ao alcance das nossas mãos todas as noites. Não é a melhor opção, é a que temos disponível. O Miojo® é a masturbação das massas.

Essa transição não dura para sempre. Além disso, nosso organismo não se satisfaz com os poucos nutrientes que o Miojo® contém. No entanto, reacionários preguiçosos que somos, dispensamos a nutrição em favor da praticidade, usando a falta de tempo como desculpa, e passamos apenas a incrementar o molho.

Traímos o movimento libertário que o Miojo® representa. Rejeitamos sua essência prática e provisória perdendo o tempo ganho com o pré-cozimento na preparação do molho. Na verdade não queremos admitir, mas não adianta fazer um molho elaborado, a essência do Miojo® continua sendo a mesma. É como rebuscar um argumento ruim.

Assim, prolongamos nossa dependência em vez de buscar novas experiências para o nosso paladar. Mas uma hora teremos que devolver ao Miojo® essa sua essência provisória, coisa que deveríamos ter feito em três minutos.

É nessa hora que pediremos uma pizza.

Texto postado no blog Idiotidiano

Bolo sabor futuro do pretérito

Parecia um bolo. Era muito mais que isso. Devo dizer, sem exagero dramático, que todas as minhas investidas culinárias sempre acabaram em fracasso. Por um tempo eu quis acreditar que era uma rebeldia feminista, uma aversão adolescente à figura da dona de casa. Mas chega uma hora que a gente enjoa de comer Miojo. Então a gente se liberta das amarras a que se prendeu por pura necessidade de autoproteção e medo de admitir a incapacidade de fazer um ovo frito. E é aí que a gente tenta cozinhar.

Eu nunca havia tentado fazer um bolo que não fosse de microondas. Desses que a gente faz na caneca e ficam com uma textura esponjosa, mas que comemos como se fosse uma delícia, afinal, ele compensa pela praticidade. Então era natural que eu me sentisse embarcando em uma nova aventura gastronômica, cheia de anseios e expectativas e “olha, eu que fiz!”.

Comecei a fazer meu bolo numa manhã, num gesto heroico de sair da cama para fazer algo “produtivo”. Comprei os ingredientes e separei em potinhos com a quantidade exata que pedia a receita. Isso me custou uma pilha enorme de louças para deixar para lavar no outro dia, já de volta ao ritmo da procrastinação.

A receita era:
1/2 xícara (chá) de óleo
3 cenouras médias raladas
4 ovos
2 xícaras (chá) de açúcar
2 1/2 xícaras (chá) de farinha de trigo
1 colher (sopa) de fermento em pó

Sempre tive muito carinho por bolos de cenoura. Acho que o fato de levar como ingrediente principal um vegetal dá a falsa impressão de que é muito mais saudável que um bolo comum. O que permite praticar a gordice com muito mais leveza de consciência.

Eu tinha todos os ingredientes. Eu tinha tudo pra dar certo. Eu fiz tudo como a receita mandava. Eu bati as cenouras raladas com óleo, ovos e açúcar por cinco minutos e acrescentei farinha de trigo e o fermento. Eu tinha todos os itens batidos e homogêneos quando enformei e enfornei.

Pela portinha, vi crescer potencialmente e dourar. Mas, passado o tempo que a receita dizia ser necessário para assar – na hora da minha obra culinária sair do forno e vir ao mundo -, o bolo abatumou.

O meu futuro também.

Texto postado no blog Idiotidiano

Para dormir, para não dormir

Era tarde da noite e ele a ouvia como quem ouve uma canção de ninar. Seus olhos pesados coçavam carentes de sono e embaçados de cansaço. Ouvia-a se distanciar enquanto adentrava o universo onírico. De longe, parecia uma voz doce e compassada. Adormeceu.

Despertou no meio da noite e passou a escutá-la novamente. Foi a primeira coisa que ouviu. Seu som parecia cada vez mais alto e se tornava irritante. Cada nota batia em sua cabeça e ecoava no silêncio dos seus pensamentos. Queria dormir, queria calá-la, mas não queria se mover.

Pensou em todas as razões para estar ali agora, com ela. Era um acomodado, só reparava o quanto ela o atrapalhava nessas horas, nas demais mal dava atenção. Estava sempre ocupado demais para dar atenção. Além do mais, ela o fazia dormir.

Era um desperdício de vida e de dinheiro tê-la ali apenas para isso, mas se livrar dela daria trabalho. Teria de contratar alguém pra isso. O banheiro ficaria uma imundície e não teria ninguém para limpar. Ele teria de fazer o trabalho sujo.

Desistiu de se livrar e tentou resgatar a afeição do começo da noite. Pensou em modos paliativos, distrações. Poderia ter outras, quem sabe. Várias dela poderiam amenizar o estrago que só uma faz. Pensou sobre como ela parecia suave quando ele adormeceu. Suave até acordar irritado. Mas ela não o irritava, não era de propósito. Apenas estava ali, sempre presente.

Não conseguia entender o que havia acontecido entre o sentir sono e o querer dormir que fez com que de uma canção de ninar, seu ruído passasse a ser um barulho infernal que fazia com desejasse ser surdo.

Relutante, foi ao banheiro e pegou uma toalha no armário. Colocou-a sob o cano da pia como quem enfia um pano na boca de alguém. Talvez assim aquela goteira parasse um pouco de atrapalhar seu sono.

Texto postado no blog Idiotidiano

Um quadro torto

Dois meses. Fazia dois meses que aturava aquele inferno. Um bimestre completo de sono matinal interrompido. A melhor parte do sono. Tão boa que parece ser responsável pela sanidade mental de um sujeito que não tem a vida recheada por grandes prazeres, como era o caso de Renato. O prêmio de consolação que a vida dá a esses infelizes cumpridores do destino imposto pela sociedade: ser apenas mais um.

Renato sempre foi um sujeito cinza: não tinha muita vivacidade, mas nunca se permitiu ser um peso morto para ninguém. Tinha a humildade como qualidade, o que o tornava parte integrante da turba que corrobora o clichê paradoxal que diz que essa característica só é motivo de orgulho para quem não tem mais nada do que se orgulhar. Não se importava com isso, poucas coisas importavam de verdade. O sono matinal era uma delas.

Fazia dois meses que havia começado aquela tortura. Todos os dias, antes das seis da manhã, o morador do 301 começava com seus barulhos variados e altos. Marteladas, notas musicais assobiadas, liquidificador, rádio, tv, marteladas, furadeira, violão, gritos no telefone, louça quebrando, mais marteladas, talheres sendo jogados ao chão. Todos os dias, Klaus, o vizinho de Renato, fazia alarde denunciando sua presença irrelevante no mundo. Renato não suportava mais a situação. Seu respeito pelo senhor de meia idade havia acabado no primeiro mês de perturbação, quando, após falar com todos os níveis hierárquicos do condomínio, bateu à porta do 301 e foi expulso sob gritos incoerentes.

Os moradores do Edifício Laffitte sabiam que Klaus havia sido abandonado pela mulher e perdido o emprego. Existia toda uma consternação em torno disso. Klaus sempre foi um sujeito simpático e prestativo. Ninguém duvidava de sua solicitude, sempre buscavam no 301 um favor. Mas agora pouco o viam e não mais o procuravam. Agiam todos como se respeitassem um luto. Klaus, no entanto, sentia apenas vergonha e a sensação quase tangente de ter adquirido lepra social e estar sendo evitado por todos que o cercavam.

Não suportava o silêncio da solidão. Preenchia o espaço vazio da casa com quadros em belas molduras que aprendeu a fazer numa dessas apostilas de estudo à distância. Era como se as imagens fixadas nas paredes substituíssem a presença com que havia sido acostumado por mais de dias décadas. Acordava para nada e sem ninguém. Então colocava mais uma moldura na parede. Deixava um prato na beirada da mesa, com dois terços da circunferência para fora e atirava alguma coisa. Ouvia o prato se espatifar no chão, distante. Depois soltava uma gargalhada gélida de escárnio. Ria de si mesmo. Sabia o quão ridícula era aquela brincadeira que fazia apenas imaginar que mais alguém ali morava e estava deixando atrapalhadamente a louça cair. Depois chorava.

Naquela madrugada, pouco mais de dois meses depois da separação e demissão de Klaus, Renato foi acordado por berros chorosos ao telefone. Abriu os olhos e respirou fundo. Tentou ignorar seus ouvidos, mas era impossível não escutar a súplica aguda por perdão que vinha do outro lado da parede.

Cessados os gritos, Renato suspirou aliviado e degustou os cinco minutos que se passaram até que as marteladas começassem. Insuportável. Seu cérebro doía de raiva e seus olhos marejaram com ódio liquefeito. Mais uma martelada. Viajaria em poucas horas, podia suportar. Outra martelada. Lembrou de todas as manhãs de sono interrompido. O tempo entre as marteladas diminuiu. Não aguentava mais, sentia-se diminuído até mesmo pelos ruídos alheios. A frequência das marteladas estava diferente, a sequência estava errada, não tinha ritmo. O barulho era alto, errado, irritante.

Renato saiu da cama, calçou os chinelos e foi ao apartamento ao lado. Ninguém mais morava no terceiro andar do velho condomínio, apenas ele e o desgraçado morador do 301. Tocou a campainha e não obteve resposta. Tocou novamente. Nada. Passou a apertar incessantemente o botão, cujo barulho irritante juntou-se as marteladas cada vez mais ferozes. Quando, enfim, a porta abriu, viu a figura do vizinho enrubescido de ódio e com o martelo em punho. Ignorou seu instinto animal que dizia para correr dali e empurrou a porta. Entrou vociferando sobre a falta de respeito e o absurdo que era não ter paz há meses. Estava colérico, não prestava atenção em mais nada além de sua raiva. Então se virou para a parede da sala do apartamento 301 e assustou-se com a bizarra coleção de quadros que cobria cada centímetro da tinta marfim.

Klaus apenas observou o rapaz gritando e reclamando e ofendendo como se assistisse a um filme. E quando Renato lhe deu as costas, calma e deliberadamente acertou seu crânio com o martelo. E martelou a cabeça novamente. E repetiu até que os espasmos nos membros inferiores de Renato cessassem. Então voltou para as paredes e martelou mais pregos, onde pendurou mais quadros, no mesmo ritmo com que matou o incomodado vizinho. Mais tarde, entre notas musicais assobiadas e louças derrubadas no chão, limparia a bagunça e então daria um jeito naquele monte de carne inerte.

O problema era o barulho

         O barulho estava irritante naquela tarde fria de julho. Era o ruído chato das tentativas de silêncio, das respirações, dos lápis, das idéias alheias. Eu estava atrás de uma pilha de livros velhos, buscando alguma inspiração para a estória enjoativa que tentava escrever. Acho que sentia inveja do barulho que as outras pessoas estavam fazendo. O barulho me dizia que estavam criando. Da minha mesa não saía som algum.

         Era uma biblioteca velha, dessas com prateleiras de madeira escura que vão até o teto, cheias de livros meticulosamente distribuídos. Sempre tive um flerte com a desorganização deliberada. Ainda guardo minhas fotos todas em uma caixa só, misturando datas e lugares e pessoas. Assim, quando um rompante nostálgico me toma, deixo a cargo da aleatoriedade da vida a lembrança que reviverei. Mas naquela tarde, desconcentrado pelos ruídos da movimentação, lembrei de outras tardes passadas em bibliotecas. Tardes jovens e despreocupadas em que gastava meu tempo desorganizando as prateleiras. Considerava aquilo uma delinquência filantrópica: os livros que mais me agradavam, eu os colocava em prateleiras ocupadas por livros didáticos ou que, na minha jovem e prepotente opinião, eram enfadonhos.
         Me sentia um pouco Deus naqueles momentos. Influenciando deliberadamente o destino das pessoas. Quando lembro, não entendo de onde eu tirava isso de ser Deus. Eu nem mesmo acreditava na existência de um Deus. Acho que ainda não acredito. Acho que nunca acreditarei, mas não me fecho para essa possibilidade. Tento não me fechar para nada. Mas mesmo naqueles dias de frescor da idade, quando a questão surgia e eu tentava imaginar como seria essa existência, não imaginava Deus como um manipulador, se dando ao luxo de ter acesso irrestrito ao destino das pessoas. Imaginava Deus como um cara mais ético que isso. De acordo com a minha ética, claro.
         Pensava em Deus como uma platéia de uma pessoa só, observando um teatro de improvisação. Vez ou outra, ele manifestaria seu descontentamento com vaias ou aplaudiria. E essas vaias e esses aplausos e esses tomates podres é que diriam que rumo a improvisação deveria tomar. Um teatro de improvisação influenciado pelo gosto da platéia. Mas essas manifestações de agrado ou desagrado influenciavam todo o elenco, não individualmente. Não via como um cara intrometido, Deus. Na verdade, ele nem mesmo teria interesse em saber o nome dos atores. Seríamos seu passatempo. Ele teria ocupações mais sérias.
          Ainda assim, me sentia um pouco Deus naqueles momentos. Eu desorganizava e dava trabalho para os funcionários da biblioteca porque aquele era meu dever. Era meu vandalismo célico. Era assim que eu chamava, “vandalismo célico”. Poxa, eu realmente me sentia Deus! Achava até mesmo a arrogância de me considerar Deus uma coisa meio divina. Mas não me bastava essa sensação. Eu queria saber o que acontecia depois. Queria saber o resultado da minha influência. Várias vezes fiquei observando as prateleiras cuja organização violei, na esperança de ver quem seria tocado por mim. Nunca tive essa sorte. Semanalmente verificava se os livros intrusos continuavam ali e, ainda que eu soubesse que eram reorganizados pelos estagiários da biblioteca, gostava de inventar estórias sobre o que acontecia com eles. Fingia que não era minha imaginação, mas que eu estava vendo. Um médico buscando um livro de anatomia e descobrindo Vonnegut ou uma professora de primário solteirona encontrando Balzac.
          Então um dia me mudei e, por costume, fui conhecer a biblioteca da cidade. Olhei as prateleiras poeirentas e me senti em casa. No meu mundo. Ali eu era Deus. Estava andando pelos corredores estreitos tocando os livros com as pontas dos dedos e correndo os olhos por seus títulos, relembrando trechos e personagens do autor e trechos e personagens da minha vida, quando um livro em especial me chamou atenção. Era um dos primeiros livros que havia lido e realmente gostado.
          Retirei o exemplar de Pergunte ao Pó e fui com ele até a parte reservada aos livros jurídicos. Caminhei entre leis penais carregando comigo aquele delíto inócuo. Mas antes que eu pudesse me infiltrar no gosto literário de alguém que estivesse à procura de um código civil, meu coração disparou. Ali, entre duas constituições federais, estava um exemplar de Ulisses. Senti como se um pingo de água glacial percorresse minha espinha. Alguém havia feito antes de mim. Haveria outros deuses como eu? Alguém pensava igual a mim? Teria sido apenas um erro, uma distração de algum funcionário? Sem respostas, retirei o livro que estava ali e coloquei o John Fante no lugar.Na saída, devolvi a obra de James Joyce à bibliotecária.
          Se era para existir um Deus naquela biblioteca, seria eu.
Essas lembranças fizeram com que um sorriso saudoso surgisse no canto da minha boca, fazendo-me esquecer a criatividade incômoda das pessoas que ali estavam. Peguei o livro que estava à minha frente na mesa, fui até a seção de romances tipicamente femininos e detestáveis e coloquei o Jogo da Amarelinha entre títulos açucarados. E então fui embora.